quarta-feira, 24 de agosto de 2016

TER O MUNDO COMO O LAR...

(Giomar Henrique Clemente)
Pe. Lucas Marandi
Realidade concreta ou pura utopia? Esta pode ser uma indagação feita ao se deparar com a frase que dá título à presente reflexão. O dicionário de língua portuguesa define lar como “habitação doméstica de alguém; casa; família; a pátria, a terra natal”. Esta definição nos ajudará a entrar na proposta da temática que se deseja abordar e partilhar nessa conversa. Com base nessa compreensão, nota-se que ela agrega um conjunto de itens e abarca também pessoas, relações, vivência. O lar é o nosso lugar por excelência, onde somos nós mesmos, o espaço de vínculos fortes que nos mantém vivos. Todo ser humano tem um lar, o escolhe, o constrói e o cultiva.
Cada um já deve ter feito a experiência de se distanciar do seu lar e viver em outro espaço. A sensação é bem diferente. No mínimo, ninguém fica à vontade. Sempre permanece a ausência de algo e deixa-se de ter a liberdade que comumente a casa proporciona, e assim também com os familiares. A maioria das pessoas possuem um único lar, e fazem desse lugar a sua vida, pois, cada um lhe confere suas peculiaridades. Adequar o ambiente a seu modo é sentir-se parte dele, é assumi-lo como seu. Até aqui, nada de anormal, pois tal concepção é padrão, acredito que para todos. Mas, escolher o mundo como o próprio lar, ah, isso é fora de sério e até curioso. É esta aventura que vamos acompanhar na história de Pe. Lucas Marandi. Convido todos a colocarem os “óculos” da fé para fazerem a leitura num horizonte vocacional missionário.
Padre Lucas Marandi é Missionário Xaveriano, natural de Dinajpur, norte de Bangladesh, fronteira com a Índia, localizado no continente asiático. É o terceiro filho do casal Mondol Marandi e Elina Hembrom,  tendo também 01 irmão e 04 irmãs. Todos são casados e residem em Bangladesh.
O desejo de servir ao povo como padre sempre esteve presente, desde a sua infância, levando-o nessa busca a ingressar primeiramente no Seminário Diocesano, em 1994. Alí fez parte por três anos, de um grupo de seminaristas formado por 15 jovens. A rotina formativa se alternava entre estudos normais no colégio e estudos no próprio seminário. Passado esse período e chegado as férias, retornou para visitar seus pais e decidiu não mais continuar a formação diocesana. Iniciou no ano seguinte, a faculdade de Ciências Sociais. Curso que estudou por três anos, até 1997.
No ano de conclusão da faculdade, os Missionários Xaverianos promoveram um Estágio vocacional “Vinde e vede”, com duração de 01 semana. Naquela ocasião, um dos padres o convidou à participar do encontro. Ter aceito o convite mudou os seus planos e fez acender novamente dentro de si a chama vocacional de querer ser sacerdote. O encontro, além das reflexões e vivência com outros jovens, proporcionou visitar as missões xaverianas, especificamente o trabalho com pessoas portadoras de necessidades especiais, pertencentes a diversos grupos religiosos existentes naquela realidade. O contato com tais pessoas, sobretudo o trabalho desenvolvido pelos missionários, veio acompanhado do pensamento de São Guido Maria Conforti, Fazer do mundo uma só família”. Esta proposta ressoou no seu coração e se tornou um forte convite, levando-o a querer participar diretamente deste sonho. Escolheu assim ser também Missionário Xaveriano. E começou a formação na Congregação.
Acostumar com a nova modalidade de vida foram os primeiros desafios a serem superados, após a saída de casa. No entanto, o tempo e a perseverança foram sempre aliados constantes. Realizou os estudos de filosofia em Dhaka, capital de Bangladesh, e os estudos de teologia em Filipinas. Mudando de país, teve de aprender novos idiomas e acolher a novidade de cada cultura como dimensão da própria escolha de vida que decidiu abraçar. Essa abertura já iniciava na vida da própria comunidade formativa ao qual veio integrar, que era bem diversificada. Alí havia 08 nacionalidades diferentes. Os aspectos culturais, apesar de distintos, foram adotados como seus, assumindo também esta nova terra e novos irmãos como lar.
Em 09 de setembro de 2011 foi ordenado sacerdote e recebeu como sua primeira destinação missionária, o Brasil. Após dois meses, viajou para as terras brasileiras, aqui chegando a 20 de novembro de 2011. E a chegada novamente implicou no aprendizado do português, da cultura, e assim um outro ciclo de adaptação com o novo lar, o Brasil. Vir para cá não estava nos planos, pois, pretendia exercer a missão em algum lugar do próprio continente asiático. Entretanto, a consagração religiosa missionária tem a dimensão dos votos, também do voto de obediência, vivida sob a decisão dos superiores. Frente a isso, acolher a nova casa é acreditar na providência divina, protagonista primeira da missão.
A comunicação nos primeiros dias de chegada no Brasil era por meio de gestos, pois, o português era totalmente desconhecido. Esta situação colocava-o em conflito, questionando acerca da própria vinda para o país, e temeroso se conseguiria aprender o novo idioma. Ir para a escola foi necessário. Começar do zero, como criança que aprende as primeiras lições, foi fundamental, embora as dificuldades. Após meses de estudo, a comunicação foi ganhando espaço e esta possibilitou construir relações com mais afinco. Desenvolveu assim sua atividade missionária na Paróquia Imaculado Coração de Maria, em Piracicaba, São Paulo, de 2012 até 2014. Atualmente, é pároco da Paróquia São Guido Maria Conforti, na cidade de Hortolândia, São Paulo. Alí caminha com o povo, ajudando na evangelização, de modo especial com a juventude, a quem considera o grande presente de Deus.
O vocacionado missionário é aquele que deixou sua família de origem, amigos, campos, terras, por causa de algo maior: o projeto de Jesus Cristo. Por este tesouro encontrado decide partir aos destinos imprevisíveis, fazendo desses lugares o próprio lar. O mundo torna-se assim pequeno, porque transforma-se na grande casa, na grande família humana que sempre abre as portas para acolher o irmão que chega.

Que tal vir viver conosco também esta aventura? 

domingo, 21 de agosto de 2016

MISSIONÁRIAS DE MARIA XAVERIANAS...

[Giomar Henrique Clemente]
Irmãs Missionárias de Maria Xaverianas
 Hoje, no domingo em que celebramos a vocação à Vida Religiosa Consagrada, queremos partilhar um pouco da história de nossas Irmãs Xaverianas. Com a colaboração de Ir. Marlene Pantoja (MMX), que celebra em 2016 os seus 25 anos de consagração missionária, temos a alegria de festejar e nos sentar à mesa para contemplar o sonho de Deus que permeia a vida e a missão dessas missionárias além-fronteiras. Baseado no informativo das mesmas, elencamos alguns traços e personagens históricos que foram decisivos para o nascimento desta família. Desejamos que esta partilha possa tocar o coração e aguçar a vontade de mais jovens virem também fazer parte deste time. Boa reflexão! 
Mais informações no endereço: http://www.xaverianas.com/pt/

UMA FAMÍLIA PARA O MUNDO A SERVIÇO DO REINO!


São Guido Maria Conforti, após ter fundado em 1895, a Congregação dos Missionários Xaverianos, pensou em dar início também a uma Congregação feminina com a mesma espiritualidade, e que colaborasse na ação evangelizadora junto aos padres missionários. A ideia se fortaleceu na mente do bispo, sobretudo quando visitou as comunidades de seus missionários na China. No entanto, faleceu no dia 05 de novembro de 1931, três anos depois desta viagem, sem ter tido tempo de realizar a obra que sonhara.
Com o passar dos anos, uma nova luz penetrou na mente e no coração de um jovem padre missionário, padre Giacomo Spagnolo, o qual a Providência escolhia para fundar a Congregação das Missionárias de Maria - Xaverianas. Padre Giacomo Spagnolo nasceu no dia 31 de Janeiro de 1912, numa cidade chamada Rotzo, situada nas montanhas, no norte da Itália. Era o primeiro de nove irmãos, e, ainda jovem, entrou no Seminário dos Missionários Xaverianos, onde fez todos os seus estudos. Foi ordenado sacerdote no ano de 1934, com então, 22 anos. Através de seus escritos, sabe-se que, sem conhecer o plano de Dom Guido, achou-se “providencialmente” envolvido na realização de um projeto no qual nunca havia pensado. Assim registrou no seu diário, perguntando à si mesmo: “...cada vez que dialogas com teu Senhor, volta à mente aquele projeto... não dá pra deixa-la cair. Mas será isso mesmo que deves fazer?”
Enquanto aguardava sinais mais legíveis do seu Senhor, alimentava na oração aquela inspiração inicial. Para a realização da obra era necessária a colaboração de uma mulher. Esta deveria acolher as jovens que iriam fazer parte dessa família como missionárias, e se tornar para todas a “Madre”. No dia 02 de julho de 1934, assim relata em seus escritos: “... dias atrás, pensando no Instituto das nossas missionárias, em cuja fundação estou-me interessando, me veio à mente a senhorita Bóttego, como uma pessoa apta, sob todos os aspectos, para dar origem a semelhante obra”. Ao ser interpelada sobre o assunto, a professora Celestina Bóttego, manifestou-se surpresa e perplexa. Ofereceu-se para colaborar com o que fosse necessário, mas pessoalmente não se considerava apta para iniciar a nova congregação. Padre Giacomo, convencido do contrário, intensificou sua oração e sua disponibilidade ao plano de Deus. A princípio, decidiu não mais falar  sobre o assunto com a senhorita Celestina.
Na ocasião da Páscoa de 1944, padre Giacomo enviou à professora Celestina um cartão significativo, com a reprodução do Cristo Crucificado de Velázquez. Naquele cartão escreveu uma única palavra: “TUDO”. Aquela palavra, sem comentário algum, tocou profundamente Celestina e não a deixou em paz. No registro desta data, dia 24 de maio de 1944, lê-se estas palavras: “Esta tarde, saído da capela, vi a senhorita... disse-me que depois da decisão tomada a respeito da Obra, não ficou tranquila... que a imagem do Crucificado que lhe havia enviado por ocasião da Páscoa, com a inscrição  ‘TUDO’, a tinha tocado mais ainda. Manifestei-lhe a minha intenção de procurar seguir unicamente a vontade de Jesus, esperando sempre d’Ele o sinal para agir...”. No fim da página do diário, padre Giacomo escreveu: “Hoje a Congregação ganhou a sua Fundadora que ao Senhor pronunciou o seu FIAT”.
De vez em quando, ao expressar-se sobre aquele fato que originou a Congregação, padre Giacomo voltava a lembrar as irmãs: “Vocês são filhas daquele pensamento de totalidade. Pois, vivam-no!!!”

QUEM É CELESTINA BÓTTEGO?

Celestina Bóttego nasceu em Ohio, USA, no ano de 1895. Seu pai era italiano e sua mãe irlandesa. Com idade de 15 anos, foi para a Itália, ocasião em que aprendeu a conhecer e amar também as suas raízes italianas. Soube fundir o melhor das duas culturas que a tinham gerado e que, providencialmente, a prepararam à missão de ser o elo entre povos de culturas diferentes. Em 1935 foi convidada para ensinar inglês no curso de teologia dos Missionários Xaverianos. Naquela época não era comum uma mulher ensinar num seminário, e Celestina foi presença natural e luminosa também naquele ambiente.
Madre Celestina Bottego
Dar início à família das Missionárias de Maria, foi uma escolha não programada, tanto para o Padre Giacomo, como para a Madre Celestina. São fatos que a vida reserva para quem se torna disponível a vontade de Deus. Madre Celestina doou à Congregação o seu espírito de fé e de oração, o seu zelo apostólico, a delicadeza feminina, um amor suave e disponível, além de todos os seus bens materiais. Era notória a sua acolhida para com todos. Aceitou a doença e a morte com fé renovada e total entrega à vontade de Deus, na certeza da ressurreição. Faleceu na casa madre em Parma, Itália, a 20 de agosto de 1980.


25 ANOS DE VIDA CONSAGRADA...

(Ir. Marlene Pantoja-MMX)
Ir. Marlene Pantoja - Missionária de Maria Xaveriana
Neste ano jubilar da Misericórdia proclamado pelo nosso Papa Francisco, aproveito esse tempo de graça que o Senhor nos dá através da Igreja, que nos ensina e nos mostra o rosto misericordioso de Deus em Jesus, para louvar e agradecer ao Senhor pela sua infinita Misericórdia com que me amou e em particular neste ano no qual celebro meus 25 anos de vida consagrada. Pensei muito nesse grande dom da vocação missionária religiosa, que não é nenhum mérito meu, mas puro Amor Misericordioso de Deus.
Nasci em Quatro Bocas, Município de Tomé-Açu, diocese de Abaetetuba -PA. Tenho a alegria de dizer que minha Paróquia tem como Padroeiro S. Francisco Xavier, o grande missionário das Índias. Venho de uma família muito simples, mas numerosa: somos oito irmãos do primeiro matrimônio e cinco do segundo. Minha mãe vive ainda no meio de nós e está muito presente na minha vida, me acompanhando com as orações e o apoio à minha vocação.
Agradeço muito pelo testemunho de fé dos meus pais, que acredito ter sido um grande tesouro para alimentar a minha caminhada vocacional. Além da família, posso dizer que me encorajaram muito meus professores do ensino médio e alguns deles até hoje me acompanham. Outra figura marcante, é o pároco daquela época, um Pe. Xaveriano; e a minha catequista, que até hoje me lembro da sua dedicação e o testemunho da sua vida doada naquela comunidade.

Enfim, todas as pessoas que fizeram parte do meu caminho vocacional, até chegar à minha grande família missionária que me acolheu e nesse ano partilha comigo dessa alegria do dom da vocação missionaria. Tenho somente o desejo de cantar as maravilhas que Deus realizou e continua realizando na minha vida. Obrigado Senhor, por tudo, obrigado Senhor! Esse é o refrão que vem do meu coração!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

“VINDE E VEDE”


(Gilberto Santos)

Sou Gilberto, tenho 28 anos, vim de “bem dali” onde tem água boa e ‘sombra fresca”. Meu pai é Adonel e minha mãe Maria de Lourdes, tenho 8 irmãos que moram  em – eu chamo de mundo- São Felix do Xingu, no estado – alguns chamam de país- do Pará.
Hoje paro um pouco para falar da minha caminhada vocacional. Falar desta busca é reencontrar os anseios, as motivações as vezes adormecidas. Lembro que esta vocação missionária nunca tinha passado em minha cabeça e se alguém sugerisse este modelo de vida, eu logo descartava qualquer nível de possibilidade. Foram muitas vezes que disse: “não, quero cuidar de meus filhos e ser professor de matemática”.
Depois de tantos não decididos, em uma manhã do mês de março de 2008, padre José Borghesi, Xaveriano, meu amigo, se atreveu em tocar no assunto com todas as palavras. Ele perguntou se eu não queria fazer uma experiência para conhecer mais de perto a Congregação Xaveriana. O meu não foi imediato. Ele falou de forma simples e objetiva, de modo que depois de algum tempo de reflexão daquele chamado, ainda ecoava em minha cabeça. Foi por isso que o meu não, não adiantou. Por noites, ficou em minha mente o refrão: lá na praia, eu larguei o meu barco, junto a Ti buscarei outro mar’. O fato é que nunca fui pescador, e até então, nunca tinha visto nem barco, nem praia. Foi aí que parodiei este refrão para: “lá na roça, deixei as enxadas, junto a Ti carpirei outro lar”.
Cidade de São Caetano de Odivelas - PA
Quando três meses se passaram, comuniquei à minha mãe e liguei para o padre José. A partir daí conheci padre Luiz Toledo, padre Luiz Amadeu, padre René, que me ajudaram no discernimento. Depois desse tempo, saí de casa dia 27 de dezembro de 2010 e fui acolhido na Comunidade Paroquial de São Félix do Xingu, onde terminei o ensino médio. No ano seguinte, foi Pe. Valter Parise que me acolheu no Seminário em Ananindeua. Foi aí que cursei a filosofia.
Gilberto e o seu  promotor vocacional Pe. Luiz Toledo
Deixei pai, mãe, irmãos e sobrinhos. Descobri com o tempo que estes formavam o meu barco. Isso me leva a acreditar em um mundo de irmãos, acreditar no humano e nos desígnios Daquele que nos chamou à vida. Significa uma gota de água no oceano, um grão de areia que busca ocupar o seu lugar. Significa não perder a esperança na promessa e o sinal se torna real diante da resposta “eis-me aqui Senhor”.

Há coisas e causas que procuramos para dá um sentido à vida. Nesta procura não podemos deixar de ouvir Aquele que nos chama onde quer que Ele chama, e por vez, fazer a vez de Pedro respondendo “Senhor, em teu nome lançarei as redes”. Seguindo a caminhada na formação missionária, hoje me encontro no Noviciado Xaveriano, em Hortolândia, São Paulo. Sou feliz em percorrer este caminho, pois, como disse papa Bento XVI “quem escolhe Cristo não perde nada, mas ganha tudo”, “nada perde, nada absolutamente nada daquilo que torna a vida livre, bela e grande”
Pastoral na paróquia São Guido Maria Conforti / 2016

domingo, 14 de agosto de 2016

AS MÃOS E O CORAÇÃO NO MUNDO...

[Giomar Henrique Clemente]
Foto tirada no 'Museu da vida', Curitiba-PR / 2015
Pensar no missionário e missionária como apenas os religiosos, religiosas, os padres, é limitar-se apenas numa faceta do grande mosaico vocacional que a Igreja constitui. É compreensível que ainda tais concepções perdurem em algumas realidades, afinal, por anos enfatizou-se apenas este aspecto sempre que se tratava da vocação, atribuindo-lhe soberania. Por outro lado, a Igreja caminha, e o caminho modifica as concepções a luz do Espírito Santo. Hoje, não cabe mais esta desculpa, embora se perceba que a mudança desta concepção ainda é lenta. É tempo de largar as nossas “muletas” e viver de fato o nosso batismo. Viver implica também conhecer a nossa fé, adentrar a superfície e conhecer o “interior da casa”. É um esforço possível que compete a todos nós. O Documento de Aparecida, nos números 209 e 210, falando sobre os leigos, ressalta:
Os fiéis leigos são ‘os cristãos que estão incorporados a Cristo pelo batismo, que formam o povo de Deus e participam das funções de Cristo: sacerdote, profeta e rei. Realizam, segundo sua condição, a missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo’. São ‘homens da Igreja no coração do mundo, e homens do mundo no coração da Igreja’.
Sua missão própria e específica se realiza no mundo, de tal modo que, com seu testemunho e sua atividade, contribuam para a transformação das realidades e para a criação de estruturas justas segundo os critérios do Evangelho. ‘O espaço próprio de sua atividade evangelizadora é o mundo vasto e complexo da política, da realidade social e da economia, como também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos ‘mass media’, e outras realidades abertas à evangelização, como o amor, a família, a educação das crianças e adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento’. Além disso, eles têm o dever de fazer crível a fé que professam, mostrando autenticidade e coerência em sua conduta.
Entender que o carisma Xaveriano é um presente dado à toda Igreja, é olhar que ele não se fecha nos consagrados (religiosos, padres). É uma vocação que também toca e germina no coração do leigo, da leiga, e tem nela um terreno fértil de missão. A imagem do “fermento na massa” é uma analogia cabível e sintetiza bem esta vocação. Nesse sentido e nesta alegria, apresentamos a partilha do Geraldo a respeito da sua vocação na família de São Guido Maria Coforti. Para quem quiser conhecer algo a mais sobre os Leigos Missionários Xaverianos, acesse o endereço: http://leigosxaverianos.blogspot.com.br/
Boa leitura!

LEIGOS MISSIONÁRIOS XAVERIANOS

                                                                                               (Geraldo Pereira)
Geraldo Pereira

O começo de tudo...

É importante sempre em toda história e assim na história vocacional, voltar e visitar a origem de tudo, o germinar da resposta que continua sendo dada hoje. Sou Geraldo do Carmo Pereira, Leigo Missionário Xaveriano, moro na cidade de Hortolândia, São Paulo, e participo da Paróquia São Guido Maria Conforti, onde estão presentes os Missionários Xaverianos. Eu e minha família sempre tivemos proximidade com os xaverianos, particularmente com a Comunidade Xaveriana do Noviciado. Foi nesta vivência nutrida por vários anos, que acompanhando os seus trabalhos e a dedicação de vários jovens que passavam pela Casa de formação, que despertou a vocação missionária na família de São Guido. Foi um desejo diferente de ver as coisas, os trabalhos pastorais nas comunidades. Diante disso, foi profundo perceber a necessidade de ter um objetivo principal em todas essas ações. Ir ao encontro do outro, não ficar esperando as pessoas. Nesta saída, levar o Evangelho de Jesus à quem ainda não o conhece. Sair compreendido aqui, não apenas como não ficar dentro das capelas, igrejas, mas, principalmente sair dentro de nós mesmos.
Geraldo e família na ocasião do níver de Pe. Lucas
Em 2010, por iniciativa do Pe. João Bortoloci (xaveriano), marcou-se uma reunião com vários ex-seminaristas e algumas pessoas próximas dos xaverianos. Nesse encontro surgiu a ideia de formar os Leigos Missionários Xaverianos. Eu estava presente e testemunho que foi maravilhoso. Estávamos em 12 pessoas no início, e foi bom dar esse passo, sonhar este sonho.

O significado hoje...

Após este tempo de caminhada, surpreende-me olhar a trilha construída e se alegrar com tantos outros irmãos e irmãs que também abraçaram este projeto vocacional. Hoje nos preparamos para realizar nossa 6ª Assembléia dos Leigos Missionários Xaverianos, que acontecerá em novembro deste ano, na cidade de Coronel Fabriciano, Minas Gerais. É o sétimo ano de vida dos Leigos Missionários Xaverianos.
Leigos Missionários Xaverianos em companhia de Pe. Domingos e Pe. Rafael
No início, tínhamos pressa em aprovar o Estatuto. Porém, com o tempo, percebemos muitas outras coisas que eram prioritárias. Ser Leigo Missionário Xaveriano hoje, me faz sentir bem. Gosto muito porque é uma vocação que não nos deixa acomodado. Deixa-nos atento com o que está acontecendo com o outro, sentindo assim que o outro está próximo de nós, e que todos são nossos irmãos. O outro, o distante, não é apenas aquele que está longe fisicamente. Pode ser também aquele que está dentro de nossa casa. Ser Leigo Missionário Xaveriano ensina que devemos “Fazer do mundo inteiro uma só família”, começando no nosso pequeno lugar de missão. É um prazer muito grande ser parte desta família missionária e viver aqui a minha vocação xaveriana!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

MISSIONÁRIO XAVERIANO NO JAPÃO

"Na semana em que recordamos e celebramos a vocação do padre, trazemos na íntegra, a partilha vocacional do padre Michel, missionário Xaveriano em missão no Japão. Nossa gratidão desde já pela sua disponibilidade ao nosso convite e pelo testemunho que também nos enche de alegria nesta mesma caminhada! Acompanhem a partilha!" (Giomar Henrique Clemente)
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VOCAÇÃO...

(Pe. Michel Luciano) 
Pe. Michel e as professoras da creche, festa de comemoração do verão- Japão
Eu me chamo Michel Luciano Augustinho da Rocha. A minha família é constituída dos meus pais, já falecidos, e tenho uma irmã mais nova. Nasci em Centenário do Sul, norte do Paraná, no dia 21 de abril de 1977. A minha comunidade de origem é a Paróquia Nossa Senhora das Graças de Centenário do Sul. 

CHAMADO VOCACIONAL...

A minha família é originária da Itália. Os meus bisavós vieram ainda pequenos da Itália, fugindo da pobreza da Primeira Guerra Mundial. No inicio vieram para São Paulo, e depois, para trabalhar nas plantações de café, foram para o norte do Paraná. A minha família sempre foi muito católica. Desde recém-nascido, os meus pais me levavam à missa. A paróquia foi fundada pelos Xaverianos e eu frequentei toda a catequese alí. Desde os 7 anos de idade entrei no grupo dos coroinhas e todos os dias eu frequentava a missa. Nas quintas e sextas-feiras, junto com os Padres da paróquia, eu ia às fazendas para a missa. Esse fato foi muito importante para despertar a minha vocação, pois via que as pessoas das fazendas esperavam com muita alegria os padres, e como tinha a missa somente uma vez por mês, não tinha somente a missa, mas também confissões, primeira-comunhão, batizados.
Fui coroinha dos 7 aos 14 anos de idade. Nós éramos um grupo de 40 crianças. Nesse tempo trabalhavam na paróquia os padres Pietro Lamana, Flavio Cossu, Giuseppe Chiarelli e Giovanni Femminella. Era uma comunidade muito bem animada, e dava para perceber que eles gostavam de trabalhar juntos. Até os 14 anos de idade, nenhum deles falou nada sobre a vocação sacerdotal missionária. Como eu estava terminando a 8ª serie, e tinha que pensar o que fazer como 2° grau, o padre Flavio que me conhecia muito bem, me convidou para fazer um Encontro vocacional no Seminário de Londrina. Esse encontro durou um final de semana.
Durante esse encontro, eu deixei que Deus pudesse me falar através das palestras e das orações que nós fizemos. Eu conhecia muito bem os Xaverianos, pois fui batizado por um Xaveriano, padre Renato Gotti. Fiz a minha primeira confissão e comunhão com um Xaveriano, padre Flavio, e fui crismado pelo Bispo Dom Geraldo Majella Agnelo, Bispo de Londrina, mas tinha os Xaverianos ao lado dele. No final desse encontro, o Reitor do Seminário, padre José Maria Ribeiro dos Santos veio falar comigo e me convidou para entrar no próximo ano no Seminário. Eu sem pensar muito, disse sim, e em 02 de fevereiro de 1992, entrei no Seminário Xaveriano de Londrina. Eu tinha 14 anos de idade quando entrei. Nunca tinha passado mais de 3 dias fora de casa. No início, a maior dificuldade foi por parte da minha família, principalmente da minha mãe, pois era muito difícil para ela não ter mais perto dela o filho. Também para o meu pai foi difícil, pois ele tinha o sonho que eu seria advogado. Mas os anos se passaram, e eles se convenceram que a minha estrada era aquela missionaria, e ficaram muito felizes por isso. Como sempre foram muito fervorosos, ajudando muito na paróquia. Eles deixaram com que Deus pudesse chamar o filho deles para seguir a Jesus na vocação consagrada xaveriana.

DECISÃO DE VIVER A VOCAÇÃO...

Acredito que não foi somente no dia 02 de fevereiro de 1992 que eu decidi de viver a vocação missionária xaveriana. Tanto antes, como depois, tiveram vários fatos que fizeram com que eu renovasse essa decisão. O meu processo de formação começou em Londrina, mas depois de 4 anos, os outros 4 da minha turma desistiram e eu fiquei sozinho para ir à Curitiba, na etapa da Filosofia. Mesmo assim, fui para Curitiba e comecei a Filosofia.
Nesse primeiro ano, no dia 01 de setembro de 1996, minha mãe morre de repente de enfarto do coração. Eu estava em Curitiba e ela em Centenário do Sul. Esse fato foi muito importante para novamente decidir de viver a vocação xaveriana, pois tanto meu pai, como minha irmã ficaram muito abalados com essa morte, e com o apoio dos meus formadores e também da comunidade, pude continuar a formação e os estudos. Depois, no final da etapa da Filosofia, também ali fiquei sozinho mais uma vez. Como deveria fazer o Noviciado, foi decidido que eu fosse para a Itália, fazer o noviciado em Ancona. Acredito que esse momento também foi um renovação da decisão.
Ter feito o noviciado internacional em Ancona ajudou muito na minha vocação, pois foi a primeira vez que experimentei a realização do sonho do nosso Fundador: que o mundo seja uma só família. Pois, éramos italianos, espanhóis, um dos USA e eu de brasileiro, como noviços. Mas todos nos sentíamos na mesma família. Também durante o período de Teologia na Itália tiveram vários fatos que me ajudaram a fortalecer a decisão tomada tantos anos atrás. Ali também nós éramos 25 estudantes de 8 países diferentes. Essa experiência foi desafiadora, e ajudou muito a moldar a minha vocação.
Fui ordenado no dia 29 de abril de 2006 em Centenário do Sul. Depois de 3 dias, morreu minha avó materna, madrinha do meu batismo. Depois de 1 mês, no dia 01 de junho de 2006, morre também meu pai, depois de ter lutado contra um câncer no cérebro por 5 anos. Também esses momentos me ajudaram a amadurecer na decisão. Na vida existem tantos fatos, pessoas, situações que Deus coloca para que a decisão vocacional, assim como o ouro é forjado no fogo, também essa seja purificada.

O SIGNIFICADO HOJE...

Atualmente eu me encontro na missão do Japão, já fazem 9 anos. A primeira missão onde fui mandado, depois dos dois primeiros anos de estudo da língua, foi na cidade de Miyazaki, na ilha do Kyushu, sul do Japão. Ali eu tive a primeira oportunidade de entrar em contato com um dos meios de apostolado que os Missionários Xaverianos utilizam aqui no Japão, que é o trabalho nas creches. Entre as obras utilizadas como meio de apostolado no Japão, o trabalho nas creches ocupa um lugar digno de consideração. Nós somos 33 Xaverianos que trabalham aqui Japão. Desses 33 missionários, bem 17 deles ou trabalharam por muitos anos e agora são em pensão, ou ainda trabalham nas creches. Eu atualmente sou vice-diretor de uma creche que tem 300 crianças, na cidade de Izumisano, na ilha do Kansai.
Dia da formatura das crianças do terceiro ano, na creche - Japão
Além do trabalho na creche, eu também sou pároco de uma paróquia. O trabalho nas creches é um importante meio para o nosso trabalho missionário aqui, mesmo que os resultados não se vêem em curto prazo. Um dos pontos mais positivos que este trabalho nos dá, consiste nos contatos que temos com as famílias das crianças. Esses contatos são mais ou menos longos, de acordo com quantos filhos o casal tem, e por quantos anos eles colocam as crianças na creche. A creche trabalha com crianças que vão dos 3 aos 5 anos de idade. Depois disso, as crianças entram na escola normal japonesa.
O objetivo principal do nosso trabalho na educação é aquele de anunciar Jesus Cristo. A aplicação prática desse princípio pode ser diferente, dependendo do lugar. Onde, por exemplo, o Budismo tem uma grande influência, o objetivo principal da creche é criar uma atmosfera de simpatia. Sempre, porém, nós buscamos em qualquer lugar ganhar a confiança dos pais das crianças e também das autoridades locais. O nosso contato, seja com a prefeitura, seja com o corpo de Bombeiros, a Polícia e os hospitais, aqui no bairro são constantes. Outro aspecto que nós procuramos animar é o contato constante entre as mães católicas da paróquia e as mães das crianças da creche que não são cristãs. Para que isso aconteça, o trabalho precisa ser sobre a direção de um missionário, para ajudar nesse conhecimento mútuo das duas partes.
O método mais comum e eficaz que nós utilizamos com o objetivo de fazer conhecer aos pais, Jesus Cristo, é aquele de se reunir mensalmente com as mães. Nessas reuniões, os pontos que tratamos não são de promoção religiosa, mas sim, ligados propriamente à educação dos filhos em base aos princípios católicos. Para obter mais facilmente este objetivo, são distribuídos alguns livrinhos que tratam de problemas educativos, sociais, éticos e domésticos. Durante os encontros mensais, os argumentos são: 1. Dever dos pais com os filhos e vice-versa; 2. Espírito fundamental da educação; 3. A existência de Deus; 4. O objetivo da vida e 5. Uma educação sem Deus é inútil.
Um dia de Encontro com as mães das crianças-Japão
Não é raro que depois desses encontros muitas mães exprimam o desejo de estudar mais profundamente a religião católica para poder dar uma educação melhor para os filhos. Nesse caso, as famílias das crianças conhecem melhor a Igreja e assim, o campo é pronto para “jogar a semente da Palavra de Deus”. É claro que a influência das crianças na conversão dos pais depende da capacidade da creche em formar um bom caráter. As crianças com naturalidade e simplicidade infantil repetem tudo aquilo que aprenderam na creche, em casa. Quando nós falamos com as crianças sobre o nascimento de Jesus, a sua morte, da criação como obra de Deus, elas repetem tudo em casa, e, depois, os pais falam desses argumentos quando encontram as professoras. A porcentagem de conversões aumenta ainda mais quando os filhos participam dos encontros que oferecemos aos sábados, depois que eles terminaram o curso da creche. São encontros de catequese abertos para as crianças de 6 a 15 anos de idade. Atualmente temos 100 crianças que participam.
Primeiro dia de escola das crianças-Japão
Enfim, temos muito esperança, que através desse serviço, muitos japoneses irão encontrar Jesus Cristo. Nós apenas semeamos a Palavra de Deus, mas temos a fé que essa Palavra um dia vai dar muitos frutos, pois quem faz germinar e crescer é Deus. E nós somos apenas humildes semeadores.
Crianças em classe-Japão

MENSAGEM...

Sempre gostei de pensar que antes da criação do mundo, antes mesmo que cada um de nós existisse, Deus nos escolheu pessoalmente para entrar em uma relação de filhos com Ele. Jesus morrendo por nós nos colocou no mistério de amor de Deus Pai, através do Espirito Santo. Cada um de nós é chamado por Deus a viver como irmãos e irmãs de Jesus, nos sentindo filhos de um mesmo Pai. Esse é um dom que destrói qualquer projeto exclusivamente humano. Não podemos cair na tentação de nos sentir autossuficientes até o ponto de fechar o nosso coração ao plano de Deus para cada um de nós.
O amor de Deus, através do seu filho Jesus, pela força do Espirito Santo nos chama. Para responder a esse chamado de Deus não precisa ser perfeito. A fragilidade e os limites humanos não são um obstáculo, porque contribuem para nos fazer entender que precisamos da graça de Deus. Devemos nos lembrar da recomendação de Jesus: “A messe é grande, mas poucos são os operários! Orai para que o dono da messe mande operários à sua messe!” (Mateus 9, 37). Não surpreende que, onde se reza com fervor, as vocações florescem. A santidade da Igreja depende essencialmente da união com Cristo e da abertura ao mistério da graça que opera nos corações das pessoas.
Procissão de Nossa Senhora no mês de maio- Japão
Gostaria, portanto, de convidar todos os fiéis a cultivar uma íntima relação com Cristo, Mestre e Pastor do seu povo, imitando Maria, que guardava no seu coração os divinos mistérios e os meditava assiduamente (Lucas 2, 19). E se Deus estiver te chamando para se consagrar totalmente à Ele, não feche o seu coração!